Insuficiência Venosa Crônica: Tudo que Você Precisa Saber

Alguém posta no grupo a foto do evento da semana passada. Você está de pé no meio da roda, de vestido, sorrindo para a câmera, e a foto ficou boa. Ninguém ali sabe que aquilo custou três horas em pé, nem que você tirou o sapato dentro do carro antes de dar a partida.

O que é insuficiência venosa crônica?

É a dificuldade das veias das pernas em devolver o sangue ao coração. Dentro delas há válvulas que funcionam como portas de mão única. Quando essas válvulas falham e a parede da veia dilata, parte do sangue escorre de volta e a pressão sobe. É essa pressão, mantida por anos, que gera os sintomas e as marcas na pele.

É uma doença crônica e pode progredir, embora nem toda perna chegue às fases avançadas e o ritmo dessa progressão seja influenciável. O acompanhamento existe justamente para controlar a pressão venosa antes que a pele chegue lá.

Como funciona a circulação das pernas?

São três sistemas trabalhando juntos. Quem empurra o sangue para cima é a musculatura da panturrilha, e as válvulas não bombeiam nada, apenas impedem que ele desça.

O sistema profundo é formado pelas veias que correm dentro da musculatura, e por ele passa a maior parte do sangue. O sistema superficial reúne as safenas e seus ramos, logo abaixo da pele, e é aqui que as varizes aparecem. Ligando os dois estão as veias perfurantes, e quando as válvulas delas falham o sangue passa a fazer o caminho contrário, das veias profundas para as veias mais perto da pele.

Quais são os sintomas e os sinais?

Eles pioram no fim do dia, no calor, perto da menstruação e depois de horas em pé ou sentada, e melhoram quando você deita e eleva as pernas. Esse padrão é característico, e vale mais que qualquer sintoma isolado na hora de suspeitar da doença.

O que você sente é peso, cansaço, dor que insiste, queimação, câimbra e coceira nas pernas. O que aparece são vasinhos, varizes salientes, inchaço no tornozelo, escurecimento e endurecimento da pele perto do tornozelo, a dermatite ocre, e, nos casos avançados, feridas abertas.

Nem sempre o número de veias visíveis acompanha o incômodo. Existe perna com poucas varizes e muito sintoma, e existe o contrário.

Quem tem mais chance de desenvolver?

A insuficiência venosa é comum em adultos e mais frequente em mulheres. Pesam a história familiar, a idade, o número de gestações, o excesso de peso, as rotinas com muitas horas em pé ou sentada e a trombose profunda prévia. A história familiar é dos fatores mais consistentes, ainda que ninguém tenha comparado o peso deles entre si.

Ter esses fatores não significa que a doença vai evoluir, e não tê-los não elimina o risco.

Como o diagnóstico é feito?

A consulta define o que dói e o que já mudou na pele. O Ultrassom Doppler Venoso mostra quais válvulas não seguram o sangue, onde começa o refluxo e como está o sistema profundo. Sem esse mapa, é muito complicado saber qual veia tratar primeiro.

Quais são os tratamentos?

Eles variam conforme o estágio e quase sempre combinam mais de uma frente.

O tratamento conservador reúne a meia de compressão indicada pelo médico, atividade física que ative a panturrilha, controle do peso, elevação das pernas e hidratação da pele. Ele não corrige a válvula doente, mas reduz sintomas e ajuda a segurar a progressão.

Entre os procedimentos estão a termoablação por laser ou radiofrequência, que fecha a safena doente por punção, a escleroterapia líquida ou com espuma, e a flebectomia, que retira as varizes por microincisões. Existe também o laser transdérmico e a terapia tripla, usada em casos selecionados e mais complexos, que soma o laser transdérmico para agressão térmica, a escleroterapia com espuma para promover uma lesão química e o microagulhamento para lesão mecânica dos vasos. A escolha depende de qual veia tem refluxo, do estágio da doença e das suas condições clínicas, e nenhuma técnica serve para todo mundo.

O que pode acontecer sem tratamento?

Com a pressão alta mantida por anos, aumenta a chance de alterações da pele na região do tornozelo e até mesmo de úlcera venosa, a ferida perto do tornozelo que demora a fechar, e também de tromboflebite, de sangramento por ruptura de variz e de sobrecarga do sistema linfático.

Quando procurar um cirurgião vascular?

Vale agendar avaliação quando o peso nas pernas virou rotina, o tornozelo incha no fim do dia, ficar em pé dói, ou surgiram varizes e manchas na pele.

A avaliação vascular mapeia sua circulação, identifica o estágio e permite tratar antes que a pele entre nas fases de difícil reversão.

Artigo revisado e assinado por:

Dra. Karen Utsunomia — Cirurgiã Vascular (CRM 139.678)