A importância da saúde venosa na prevenção de trombose

Duas amigas voltam do mesmo voo de onze horas, saem juntas do aeroporto, dividem o mesmo carro. Uma passa o fim de semana normal. A outra acorda no domingo com a panturrilha direita dura e dolorida, sem ter batido em nada. O voo foi o mesmo, e a diferença estava no que cada uma já carregava antes de embarcar.

Qual é a importância de cuidar da saúde venosa para prevenir a trombose?

A trombose venosa profunda acontece quando o sangue coagula dentro de uma veia funda da perna, e ela costuma se instalar quando três coisas se somam: o sangue circulando devagar, a parede da veia agredida e uma tendência maior a coagular. Cuidar da circulação age sobre a primeira dessas peças, que é justamente a mais influenciada pelo que você faz no dia a dia. O risco maior de um coágulo não tratado é ele se soltar e chegar ao pulmão, quadro chamado de embolia pulmonar, que é uma emergência.

Manter as pernas em movimento e um acompanhamento das veias reduz o risco.

O que causa a trombose venosa profunda?

Quase nunca há causa única, porque os fatores se somam, e quanto mais deles você acumula, maior fica o risco.

A imobilidade muito prolongada entra em primeiro lugar, principalmente em viagens longas, internações e no pós-operatório, ainda que trabalhar sentada, por si só, não tenha evidência suficiente de aumentar o risco de trombose, o que separa a rotina de escritório desses outros cenários.

Os fatores hormonais agem por outro caminho, aumentando a tendência do sangue a coagular, e por isso entram aqui os anticoncepcionais, a terapia hormonal, a gravidez e o pós-parto. Os genéticos aparecem nas trombofilias e no histórico de trombose na família, sobretudo quando aconteceu em parentes próximos e jovens, porque é essa combinação que costuma indicar predisposição herdada.

Fecham a lista as condições de saúde e os hábitos, como obesidade, tabagismo, câncer em tratamento e insuficiência venosa com varizes que ninguém acompanha.

Quais são os sinais de alerta para identificar a trombose?

O quadro costuma começar de um lado só do corpo, e é essa assimetria entre uma perna e a outra que chama atenção antes de qualquer sintoma isolado.

Vale procurar avaliação se você notar inchaço que aparece em dias, ou em horas, em apenas uma perna, dor na panturrilha que piora ao caminhar ou ao apoiar o pé, sensação de calor e de musculatura endurecida na região, ou mudança de cor da pele, que fica mais vermelha ou arroxeada que a outra perna.

Atenção: falta de ar que começa do nada, dor no peito ao respirar fundo ou sensação de desmaio pedem urgência, porque podem indicar embolia pulmonar.

Como prevenir a trombose no dia a dia?

Nenhuma medida isolada protege, e elas funcionam somadas.

Quebre o tempo parada. A cada hora sentada, levante e ande alguns minutos.

Beba água ao longo do dia. A desidratação deixa o sangue mais concentrado, ainda que beber água sozinho não previna trombose.

Ative a panturrilha em trajetos longos. Mexa os tornozelos e suba na ponta dos pés algumas vezes por hora, porque ela é a bomba que empurra o sangue de volta.

Use compressão quando estiver indicada. As meias graduadas reduzem o acúmulo de sangue e o inchaço em situações de risco. A meia é um dispositivo com medida, então pressão e modelo são definidos pelo cirurgião vascular.

Varizes podem evoluir para trombose?

As varizes ficam nas veias superficiais e a trombose profunda, nas veias fundas. A veia varicosa deixa o fluxo mais lento e pode inflamar e coagular ali mesmo, quadro chamado de tromboflebite superficial. Esse coágulo pode progredir dentro da variz e atingir a veia profunda nos pontos em que as duas circulações se comunicam, e é por isso que o quadro, que costuma ser mais brando, precisa ser avaliado.

Como é feito o diagnóstico e quando procurar um cirurgião vascular?

O exame físico levanta a suspeita e não fecha o diagnóstico, porque estiramento muscular, cisto de Baker e infecção de pele produzem sinais parecidos. Quem confirma é o ultrassom com Doppler, que pode ser feito pelo vascular no consultório no mesmo momento da avaliação, e que mostra se existe coágulo e onde ele está.

Procure um cirurgião vascular sem esperar se aparecer inchaço súbito em uma perna só. E procure de forma preventiva se você acumula fatores de risco: a avaliação mapeia a circulação das pernas e organiza o que faz sentido no seu caso, do acompanhamento das varizes à proteção em viagens e cirurgias.

Artigo revisado e assinado por:

Dra. Karen Utsunomia — Cirurgiã Vascular (CRM 139.678)