Faz anos que você ouve variações da mesma frase em consultórios diferentes. Que é retenção. Que é de família. Que é questão de disciplina. Nesse meio-tempo você foi subindo de tamanho da cintura para baixo enquanto a blusa continuou a mesma, e ninguém no caminho achou isso estranho o bastante para investigar.
O que é lipedema?
O lipedema é uma doença crônica do tecido gorduroso que atinge quase sempre mulheres, e nele a gordura se acumula de forma desproporcional e simétrica nas pernas, coxas e quadris, às vezes também nos braços, enquanto o tronco segue em outra proporção. Não é obesidade, e a diferença aparece quando se olha o tecido de perto: em biópsias, ele mostra células maiores, mais fibrose e mais células de defesa do que o tecido de quem tem o mesmo peso, num padrão inflamatório próprio, diferente do da obesidade. Se essa inflamação é causa ou consequência, ainda não se sabe. O que se sabe na prática é que ele dói ao toque, e que a dor e o peso nas pernas não cedem nem com dieta restritiva nem com treino pesado.
Quais são os principais sintomas do lipedema?
Os sinais aparecem no formato do corpo e no que você consegue fazer com ele.
O volume não acompanha o tronco, mãos e pés ficam poupados, e acima do tornozelo pode aparecer um degrau visível, como se a perna terminasse antes do pé. A dor vem sozinha ou ao menor toque, acompanhada de um peso nas pernas que não sai com repouso, e o inchaço vai piorando ao longo do dia até que as manchas roxas surgem sem que você lembre onde bateu. A mobilidade cobra o preço em seguida, com rigidez, atrito entre as coxas e dificuldade para caminhar distâncias que antes você fazia sem pensar. E existe o peso que não aparece em exame nenhum, a frustração com um corpo que não corresponde ao que você faz por ele e o desgaste acumulado dos anos de diagnóstico adiado.
Como é feito o diagnóstico do lipedema?
O diagnóstico é clínico, e vem da história que você conta, do exame físico, da palpação do tecido e da comparação da simetria entre os lados. Nenhum exame de sangue ou de imagem faz isso sozinho. O ultrassom Doppler entra para avaliar as veias e para separar o lipedema de outras causas de perna inchada, como o linfedema e a obesidade, que podem aparecer junto com ele.
Quais são os tratamentos indicados para o lipedema?
Não existe cura, e o tratamento mira em controlar dor e inchaço, preservar mobilidade e conter a progressão, o que só acontece combinando frentes que se sustentam umas nas outras.
Meias ou vestuários de compressão graduada de uso regular são o pilar das diretrizes, e a drenagem linfática manual integra o mesmo pacote. Do lado do estilo de vida, comer equilibrado e manter o peso melhora sua saúde e seus marcadores metabólicos, ainda que não corrija tanto a desproporção, e o exercício regular é das poucas medidas com estudo a favor. A cirurgia, quando entra, é a lipoaspiração com técnica específica, feita para retirar a gordura doente preservando ao máximo os vasos linfáticos, indicada em casos selecionados e sempre depois do tratamento clínico, que não termina ali: os cuidados clínicos vão ser mantidos pra sempre.
Como gerenciar os sintomas e prevenir complicações?
Não há como impedir que o lipedema apareça. O quadro costuma aparecer ou se agravar em momentos de oscilação hormonal, como a puberdade, a gestação e a menopausa, o padrão familiar é frequente, e o mecanismo mais aceito envolve o estrogênio. O que dá para fazer é agir no que vem depois, mantendo o peso estável, se mexendo com regularidade, usando a compressão bem indicada e cuidando da pele, que em um tecido frágil como esse é o que evita ferida.
Quais são as complicações do lipedema não tratado?
Sem acompanhamento, o quadro tende a limitar mais a mobilidade com o passar dos anos, e pode surgir um inchaço linfático somado, o lipolinfedema, quando a drenagem não dá mais conta do volume que precisa mover. Há também o impacto emocional, com ansiedade e sintomas depressivos mais frequentes em quem convive com dor crônica e com um diagnóstico que demorou a chegar.
Quando procurar um cirurgião vascular?
Procure avaliação especializada se tem dor constante nas pernas, inchaço que não melhora com repouso e gordura desproporcional que não responde a mudanças na alimentação.
A avaliação vascular mapeia a circulação, diferencia o lipedema de outras causas de inchaço e, quando faz sentido, avalia metabolismo e composição corporal. Daí sai um plano de longo prazo.
Artigo revisado e assinado por:
Dra. Karen Utsunomia – Cirurgiã Vascular (CRM 139.678)