Sete e meia da noite, e a lista está aberta no celular ao lado do prato. Trigo riscado desde março. Leite riscado desde maio. Açúcar riscado desde sempre. A perna continua doendo do mesmo jeito que doía em fevereiro, quando a lista ainda não existia.
O que não se pode comer quando se tem lipedema?
Nenhum alimento está proibido, porque o lipedema não é causado por alimentação. Ele tem forte componente genético e hormonal. A comida mexe no inchaço, no desconforto do fim do dia e na sua saúde em geral, e sobre a dor típica da doença os estudos ainda não mostraram efeito.
Emagrecer melhora a saúde, mas não resolve o lipedema. Em treze mulheres que perderam mais de 50 kg com cirurgia bariátrica, a dor típica continuou igual, e em outro estudo uma dieta com perda de cerca de 9% do peso melhorou os exames metabólicos sem mudar a inflamação nem a fibrose do tecido. Cuidar da alimentação vale, só não como cura, e a culpa nunca foi sua.
Quais grupos merecem mais atenção?
Nenhum desses alimentos é proibido, e todos são itens cuja redução costuma ser sentida. Boa parte dessas orientações vem de estudos feitos em outras condições, não de ensaios no lipedema, então são razoáveis, com evidência limitada.
Os ultraprocessados e o fast food concentram sódio, açúcar e gordura ruim, e aí entram salgadinho, biscoito, congelado e refrigerante. Açúcar, doce e farinha refinada dão muita caloria com pouca saciedade, e deixam a glicemia oscilando o dia inteiro. Gordura trans e carne processada seguem na mesma lista, salsicha, bacon e salame entre elas. O sódio em excesso vem sobretudo de molho pronto, tempero industrializado e caldo em cubo, e é o item de efeito mais imediato sobre o inchaço à noite. O álcool fecha a lista, porque piora o inchaço, o sono e o balanço de calorias de uma vez só.
E a resistência à insulina, que tanto se fala?
Ela não é a regra do lipedema. Um estudo comparou 53 mulheres com lipedema a 55 com sobrepeso e obesidade sem lipedema, e a resistência à insulina foi menos frequente no grupo com lipedema, 18,9% contra 43,6%. Em outro, com mulheres pareadas por peso e gordura, a sensibilidade à insulina foi maior no lipedema.
E glúten e laticínios, preciso cortar?
Não por regra. Muitas mulheres relatam menos inchaço ao reduzir um dos dois, e isso merece ser levado a sério, ainda que não haja evidência de que piorem o lipedema fora de intolerância ou doença celíaca. A permeabilidade intestinal ainda é hipótese. O sensato é testar a retirada por um tempo combinado com médico e nutricionista, e depois reintroduzir para comparar.
O que uma alimentação anti-inflamatória muda de fato?
Comida de verdade, com verdura, fruta, proteína, azeite e castanha, é das coisas mais bem estabelecidas para a saúde em geral, e no lipedema o que se mediu é mais modesto: em 60 mulheres, quem seguia um padrão mais próximo do mediterrâneo tinha marcadores inflamatórios mais baixos no sangue, sem diferença em dor nem em qualidade de vida. Sobre a cetogênica, o que existe são estudos com grupos pequenos de pessoas, e o maior problema dessa estratégia nutricional é que ela é bastante restritiva e pode ser difícil de seguir no longo prazo, principalmente sem acompanhamento. Vale pelo corpo todo, não como tratamento da dor da perna, e funciona melhor quando anda junto com movimento e com compressão orientada pelo médico.
Quando procurar um cirurgião vascular e uma equipe especializada?
Vale avaliação se você tem dor nas pernas, sensibilidade ao toque, inchaço no fim do dia ou desproporção entre pernas e tronco.
A avaliação especializada mapeia sua circulação e, quando faz sentido, metabolismo e composição corporal, para separar lipedema de doença venosa e de retenção. Assim a orientação alimentar deixa de ser lista genérica da internet.
Artigo revisado e assinado por:
Dra. Karen Utsunomia — Cirurgiã Vascular (CRM 139.678)